Uma reflexão ao final de um dia.
O relógio já marca por aqui quase vinte horas. Estou finalizando o dia no consultório em Ribeirão Preto, o escurecer na janela, as luzes dos prédios do lado de fora e o silencio anunciam um final de dia confortável. Parei pra tomar um folego, mental e deixei meu olhar sair da tela de um notebook e repousar casualmente sobre os livros da prateleira à minha frente e foi ai que o título de um deles abriu uma camada de reflexão para aquela noite e aquele momento: O titulo era "Mentes Perigosas” da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Sorri imediatamente e pensei: Como são mesmo perigosas as nossas mentes.
O livro em si fala sobre o transtorno de personalidade da psicopatia, que atinge hoje cerca de 4% da população mundial, ele fala sobre mentes que assumem uma personalidade manipuladora, insensível, e que são desprovidas de culpa ou empatia.
No entanto não foi exatamente este o perigo que percebi em minha reflexão noturna.
Quantos anos passamos vivendo estritamente dentro da nossa cabeça? Quantas horas desperdiçamos utilizando a nossa inteligência não para viver o que realmente existe, mas para fugir de uma realidade que, se olhada de perto, pode ser assustadoramente fascinante e bonita?
A reflexão me atingiu porque percebo o quanto vivemos exilados entre os nossos pensamentos, por vezes também, sonhos, idealizações, desejos… Chame-os do que quiser. A pergunta que fica é: E a realidade em si? E este momento de olhar para o que de fato existe e esta ao alcance da extensão de nossos braços e conseguimos apanhar fisicamente com as mãos.
Veja essa desconexão não sai de graça. Ela cobra um pedágio alto em forma de um cansaço que, na maioria das vezes, temos enorme dificuldade em decifrar.
A Biologia da Divagação e a Mente Sem Pouso
Eu tenho pensado muito sobre de onde vem essa exaustão profunda que tanto nos atinge ao longo dos anos. Esse cansaço emocional e mental nunca vem de uma 'mente leve', ou de uma mente que vive e habita o momento presente. Ele não vem quando estamos conectados ao 'agora' sem esperar angustiados pelo depois, ou sem ficar ruminando obsessivamente o antes.
Estudos na Frontiers in Human Neuroscience evidenciam o quanto essa vagabundagem mental — esse salto contínuo entre o passado e o futuro — exige da nossa biologia. A neurociência moderna explica que esse desvio contínuo ativa severamente a Rede de Modo Padrão (DMN) do cérebro, e a carga cognitiva desse processo é brutal. Mas a clínica e a vida real me dizem algo ainda mais direto: o cansaço vem do desrespeito aos limites. Vem da falta de conexão com coisas reais. Vem desse passeio exaustivo e sem pouso sobre o mundo sem fim das idealizações frustradas ou simplesmente das pequenas frustrações acumuladas do dia-a-dia.
É muito simples: é na mente que idealizamos, mas é na realidade que realizamos. E a angústia muitas vezes nasce justamente quando estamos vivendo intensamente as ideias, mas não estamos manifestando essas ideias na matéria, no mundo palpável.
'Perceber não é decifrar as ideias do mundo, mas sim reencontrar a nossa ligação carnal e sensorial com as coisas que nos cercam.' — Aproximação Fenomenológica de Merleau-Ponty
A Estratégia dos 360 Graus e as Rotas de Retorno
Sempre que noto esse padrão – em mim mesmo ou em meus pacientes –, eu procuro testar rotas de retorno para descobrir o que trava nossa presença. Recentemente, criei uma regra prática que tenho chamado de 'A Estratégia dos 360 Graus'.
Funciona assim: quando você sentir que uma coisa começa a enroscar no seu dia, começou a sentir aquele cansaço mental independente do momento do dia este é o ponto o exato da necessidade de reconexão! É o ponto certo para parar respirar de forma consciente. Em vez de se afundar mais nos pensamentos, você gira a cabeça 360 graus, olha ao seu redor e traz toda a sua atenção para o mundo físico. Você também pode caminhar, ou ter qualquer outro contato saudável com seu mundo físico desde que seja com total intenção e atenção.
Estamos falando sobre exaustão mental e fazer isso é como retirar o peso da mente, dos ombros, e buscar um alivio também para vida. E isso não é algo para o fim do dia somente. Estamos falando aqui sobre a manutenção do seu bem estar, estamos falando sobre gestão do estresse.
Uma mente com foco excessivo se torna perigosa por que ela pode adoecer e mudar o foco do excesso mental para uma ação tangível transforma a nossa biologia. No trabalho não se trata de evitar o esforço, mas sim de buscar o trabalho inteligente que seja saudável e que esteja alinhado com a nossa disposição física e mental. É sobre aprender a se olhar, se ouvir e perceber o melhor momento de trocar a marcha do seu motor.
E sair do excesso de esforço mental é como um óleo novo para as nossas engrenagens e fazemos isso quando passamos a focar a nossa atenção sobre coisas concretas. Como apontam pesquisas da Nature Neuroscience, realizar tarefas concretas e manuais ativa circuitos de recompensa que trazem alívio imediato e sustentável para o cérebro. Qualquer excesso de foco e hiperestimulação interna gera desprazer, mas a ação focada na realidade restaura o nosso bem-estar.
O que pensar a partir daqui
Ao final do dia, o que eu realmente quero é viver algo mais pessoal, mais presente, algo que me tenha respeito que possa aceitar meus limites humanos. E hoje é o que desejo também para você não só ao final do dia, mas pela extensão dele. Proponha reencontros com o mundo presente, este mundo físico que nossos sentidos realmente repousam e habitam, sinta o bem estar deste trégua e aprenda a evitar os perigos de uma mente e de uma vida sem descanso mental. O plano das idéias é incrível, mas, afinal de contas o que realmente importa idealizar ou viver com os "sentidos?"
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